A volta da fome

A Bigorna 19/11/2018 19:20:00 479 visualizações
# legenda: Falta de comida

A culpa é da desigualdade. A falta de acesso a alimentos fez com que pelo terceiro ano seguido a fome e a desnutrição crescessem no Brasil, em países da América Latina e no Caribe, aponta o mais recente relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), divulgado em Santiago do Chile, na quarta-feira 7. De acordo com o Panorama de Segurança Alimentar e Nutricional, elaborado com auxílio da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Programa Mundial de Alimentos (WFP), 6% da população regional passa fome, perfazendo 39,3 milhões de pessoas. Se acrescidos os desnutridos, os que não conseguem obter três refeições adequadas ao dia, esse número sobre 47,1 milhões (7,9%). Um crescimento de 5 milhões em relação ao período entre 2014 e 2016. Parece pouco, quando comparado com a África, onde a fome atinge 250 milhões de pessoas (21%). Mas há razões para preocupação, já que a região é uma importante produtora de commodities alimentícias. De acordo com Julio Berdegué, diretor da FAO, as causas merecem estudos aprofundados: “Não há razões técnicas, nem materiais”.

Cortes nos programas

O Brasil não escapou. Após tirar quase 14 milhões de pessoas da desnutrição, estamos de volta ao Mapa da Fome das Nações Unidas, de onde havíamos saído em 2014, quando menos de 5% da população ficou abaixo da linha da miséria. Em 2017, 11,7 milhões de brasileiros (5,6%) viviam com menos US$ 1,90 (R$ 7,22) ao dia, o que os tornou vulneráveis à desnutrição, mal que afeta principalmente idosos e crianças. Decorrentes da crise econômica e dos cortes orçamentários, o encolhimento dos programas sociais e de incentivo aos pequenos produtores dificulta o acesso a alimentos. De acordo com a FAO, hoje 5,2 milhões de brasileiros estão desnutridos, um aumento de 200 mil pessoas desde 2012. Algo vexaminoso para um país que colhe 300 milhões de toneladas anuais de grãos. “Precisamos avançar para que todos recebam cuidados devido à desnutrição e suas consequências”, disse Carissa Etienne, diretora da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS).

Mas a situação é catastrófica mesmo na Venezuela. Hoje, 3,7 milhões de venezuelanos (11,7% da população) comem mal ou não tem o que comer. Um aumento de 600 mil pessoas desde 2015. Há falta crônica de comida, o que torna tudo mais grave e intenso do que nos demais países. Um levantamento de 2017 das universidades Andrés Bello, Simón Bolívar e Central da Venezuela apontou que 70% dos venezuelanos havia perdido peso. Na amostragem, a média de emagrecimento foi de seis quilos. Em 2012, antes da crise, os desnutridos somavam pouco mais de 1 milhão. Em 2002, eram 4,1 milhões, o que rendeu rasgados elogios internacionais ao mesmo governo bolivariano que agora fracassa inapelavelmente. O problema também persiste no Haiti (5 milhões, 45% da população) e no México (4,8 milhões, 3,8% da população), só que nos últimos três anos ambos os países apresentaram melhora. O mesmo ocorre na Colômbia e República Dominicana.

Produtos baratos

O relatório aponta que a exclusão é a principal causa da fome. Entre os mais pobres, em especial mulheres e crianças indígenas ou afro-descendentes das áreas rurais, houve uma mudança no ciclo de produção e acesso à comida. “Enquanto muitos aumentaram o consumo de alimentos saudáveis, como leite e carne, outros precisaram optar por produtos baratos, com alto teor de gordura”, diz o estudo. O resultado é que também cresceu o sobrepeso e a obesidade, que já atingem 60% da população regional (250 milhões). A ONU defende a adoção de políticas contra a desigualdade e a criação de um sistema sustentável de produção de alimentos saudáveis. Caso contrário, lamentavelmente, continuaremos a viver num continente adoentado.(DaIstoÉ)

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