Conto: A última lágrima

A Bigorna 12/08/2017 11:57:00 73 visualizações
# legenda: Conto

Já havia aderido ao cheiro hospitalar, devido ao tempo em que se encontrava internado. Sabia que estava ali, apenas como um paliativo para não sentir dor. O final da vida, pensava, é igual para todos.

Havia sido funcionário público e se aposentado com mais de 30 anos de trablho árduo e resistindo e mantendo a família com o salário baixo que recebia. Vinha de uma família pobre e casara-se cedo, o que impediu que pudesse voltar aos estudos e alçar outros postos, pois tivera duas filhas gêmeas, e, deste modo, percebeu e adotou que trabalharia para que suas filhas pudessem ter algo melhor, desfrutar de um estudo melhor e assim sofrer menos que ele, o pai.

Sua esposa morreu aos 45 anos, vítima de câncer. Avassalador enfrentou a dor e a tristeza em nome das filhas, que ainda eram crianças. Dedicou-se como pai e mãe.

Tempos depois, com muito esforço uma das filhas era professora e a outra tinha conseguido uma vaga, depois de muito estudo e dedicação e tornou-se médica.

Era a filha médica quem mais passava pelo local para olhar o pai, que, já sem forças sempre tinha um sorriso para quem chegasse perto dele. Era dos quatro filhos, o mais pobre. Os demais tinham um poderio financeiro maior, outro nível de vida, e com isso ele aprendeu que o dinheiro separa também as famílias.

Depois de aposentado ainda se dedicava a fazer alguns trabalhos fiscais. Foram só alguns anos, pois um tumor aparecera do nada e, em pouco tempo tomara quase todo o corpo.

Mesmo doente, apenas um dos irmãos apareceu para lhe visitar, e uma vez apenas. As filhas se revezavam nas noites para não deixá-lo solitário. Com o tempo, perdeu os movimentos e dependia de tudo. A professora saiu de licença quando notou que o pai, que era seu ídolo estava precisando demais dela. A partir disto, passou literalmente a ‘morar’ no hospital, só saindo para ir a sua casa, e depois sem demora já estava ao lado do pai. A médica,  que trabalhava no próprio local também cuidava sempre que estava disponível.

Os dias passaram rápidos demais, assim como a vida é um ínfimo tempo no espaço absoluto.

Era dia dos Pais, mas ele já estava demasiadamente desgastado. Numa noite em que da janela ele avistara inúmeras estrelas, pediu à filha que o levasse para vê-las, queria contemplar o que não damos importância. Queria todo o dia ver o sol nascer no esplendor de sua aurora. A explosão linda da vida, que perdeu muito, porque teve que se sujeitar a trabalhos contínuos.

Naquela noite, a filha professora o levou até um local aberto, um pequeno jardim dentro do hospital. Embora com dores e em cadeira- de-rodas o velho pai ficou contemplando as estrelas silenciosamente.

A filha ao lado olhava o rosto de seu ‘ídolo’ e rememorava contando a ele as passagens da vida, passeios, enfim, o pouco que o pai tinha que mesmo assim lhes deixava felizes.

Por fim, após algum tempo, ela saiu para pegar um copo de água. Quando voltou seu pai estava com a cabeça abaixada. Checou os pulsos e viu que ele havia partido. Ergueu seu rosto. Estava límpido e formoso. Do lado ela notou que escorria uma lágrima. Era sua última lágrima.

Por Assis Châteaubriant

 

 

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