Conto: Outro dia, mais um dia

A Bigorna 13/07/2017 16:41:00 401 visualizações
# legenda: Conto

Era conhecido, mas não era visto. Depois de anos de entrevistas, fotos, bem antes das tais redes sociais, viagens esgotantes, discussões sobre a vida e a literatura, de repente, ele resolveu ficar consigo. Apenas ele, e, mais nada.

A vida, atualmente, para ele era esgotante demais. Chata demais. Perigosa demais, enfim, tudo era demais. E o demais o esgotou.

Acordava cedo. Fazia uma caminhada, logo em seguida, de modo a não ser importunado, afinal, quem iria andar às 5 da manhã. Tomava seus remédios noturnos, assistia o telejornal, e, por fim, sempre adormecia.

As visitas ao médico aumentaram, e isso o chateara. Vigor não era mais a palavra que ele podia falar, o tanto quanto dissera aos outros.

Sua vida dedicada extremamente a arte literária tomara tanto tempo de sua vida, que, tudo que ganhara, hoje, não tinha onde gastar. Não gostava de viagens, ou qualquer tipo de passeio, muito menos vida social. A única pessoa que ainda tinha contato era com Eneide, sua empregada que há décadas o acompanhava nas tarefas do lar. Era sempre ela quem trazia de tudo para a casa, e até mesmo recolhia o jornal, quando o encontrava jogado a sacada, e seu patrão estava a divagar em sua cadeira, indo e vindo; com olhar vidrado, daquelas pessoas que pareciam não existir naquele momento.

Nunca o incomodava quando o encontrava daquele modo. Sabia que dentro em pouco tempo, ele logo estaria na cozinha para o desjejum.

O celular ficava à mesa daquilo que fora um dia seu escritório, onde passava horas, dias, meses em trabalho contínuo em suas obras literárias, as quais nutria grande prazer. O enorme prazer que era escrever e ser lido.

Hoje tudo era passado.

Quando o telefone tocava, sempre sua fiel ‘companheira de lar’ era quem atendia. Dizia que anotaria o recado, mas seu patrão nunca retornava. As grandes revistas, e até mesmo as de enorme expressão literária, já não lhe procuravam. Entretanto, os fãs ainda existiam e eram muitos. Ele era uma figura mítica. Seus leitores eram tão fissurados em suas obras, que, inúmeras vezes fizeram passeatas defronte sua casa, pedindo uma nova obra.

Há mais de dez anos, não escrevia. E não queria mais escrever. Era um leitor fissurado. Lia com afinco tenaz. Adorava as grandes obras e sabia discernir um grande escritor, de um mero escritor que era lançado pelas editoras para que as vendas aumentassem – livros sem conteúdo, sem alma, sem uma verdadeira literatura.

Dezembro chegara com a maior rapidez do que os anos anteriores. Não comemorava mais aniversários como antes, pois sabia que, cada ano, seria um ano a menos em sua vida. Sem o qual, também pouco estava ligando em viver ou deixar de existir.

No dia 24, antevéspera de Natal, deu folga para sua “companheira-amiga”. Como de costume saiu para uma breve caminhada, pois estava um pouco indisposto. Olhou de soslaio para a caixa de correio e foi até ela. Havia apenas uma carta, um nome, com caligrafia feminina. Parou. Pensou e não se lembrou de quanto tempo recebia uma carta. Abriu-a. Estava manuscrita. Parado fitou a lê-la. Era uma menina. Surpreso. Uma menina que sequer havia nascido quando lançou seu primeiro livro.

A menina dizia-lhe que já tinha lido todos os seus livros e que amara cada um deles. Embora jovem, a literatura era sua paixão.

Ela lhe fazia apenas um pedido...

Depois, de ler a carta, a amaçou e segurando-a em sua mão, lentamente, voltou para sua casa.

Desistiu de caminhar.

Sentou-se em sua poltrona com a carta amassada em seu colo. Fechou os olhos e, por um ínfimo momento, chorou.

 

André Guazzelli é jornalista.

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