O futuro do pretérito

A Bigorna 06/12/2017 18:40:00 144 visualizações
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Há duas curiosidades que são lançadas aos historiadores com frequência. A primeira diz respeito ao futuro: o que acontecerá no Oriente Médio em dez anos? Quem vencerá o pleito de 2018 no Brasil? A corrupção tem jeito? É inútil dizer que, no campo profético, o valor da opinião histórica é idêntico a jogar búzios ou ler borra de café. Como não existe futuro, o historiador no máximo pode falar de alguma tendência e, mesmo assim, a possibilidade de erro é enorme, pois está no campo randômico do “chute”.

A segunda curiosidade diz respeito à história contrafatual, um passado que começa com “e se?”. Não se trata mais do futuro a partir do presente, porém da introdução de uma mudança em fato conhecido. É quase uma sina: você passa anos estudando o passado, aprende paleografia (decifrar escritas antigas), estuda teoria, frequenta arquivos empoeirados, restaura documentos, estraga sua visão com microfilmes e consegue uma vaga noção, incompleta, do que ocorreu. Depois de anos curvado sobre tomos pulverulentos, quando vai a público para uma entrevista ou uma aula, o interesse do público parece incidir sobre aquilo que você nunca trabalhou: o futuro e a hipótese ficcional!

A tentação da profecia deve ser superada pelo filho de Clio (a musa da História). Aliás, a tentação da profecia deveria ser superada por todos os filhos de Eva, porém persiste com força inaudita.

A história que trabalha com hipóteses derivativas de fatos não ocorridos encontra uma certa acolhida, especialmente nas universidades norte-americanas. Nos anos 1960, Robert William Fogel afirmou que, mesmo sem as ferrovias, os EUA teriam progredido a potência industrial, pois poderiam desenvolver hidrovias e obter o mesmo sucesso. O escocês Niall Ferguson, de Harvard, faz sólida carreira trabalhando com o que nunca ocorreu. Em seus livros, especulou sobre fins alternativos da Primeira Guerra que teriam evitado a Segunda. Em um texto para um tomo organizado por ele, ficamos sabendo como teria sido a vida norte-americana caso JFK não tivesse sido assassinado. A lista de historiadores que fazem dinheiro com o futuro alternativo do pretérito é longa. Último exemplo: Richard Ned Lebow, em 2014, esboçou um mundo no qual o arquiduque Francisco Ferdinando sobreviveu aos tiros de Gavrilo Princip. Em 1916, ele foi coroado imperador, após a morte de seu tio, Francisco José. Como consequência, os impérios Otomano e Austro-húngaro não se desintegraram, não houve guerras mundiais. O czarismo caiu na Rússia, mas sem ascensão bolchevique. Hitler tornou-se vendedor de remédios, Nixon nunca entrou para a política e o primeiro Kennedy eleito para a Casa Branca foi Joseph Patrick (irmão mais velho do clã, morto na Segunda Guerra).

O exercício tem algo de divertido. E se os holandeses tivessem vencido as batalhas de Guararapes? Como estaria o Recife e o Nordeste sob comando batavo? Seríamos algo perto da Holanda ou da Indonésia, ex-colônia flamenga? Qual seria a paisagem do Rio de Janeiro se a morte de Estácio de Sá tivesse sido um revés político definitivo e não uma tragédia para seu tio, governador-geral? Haveria um Monsieur Sergiô Cabral detido por um gendarme? Se Farrapos e Cabanos tivessem vencido e o Rio Grande do Sul e o Grão-Pará fossem países autônomos?

Imagine algo recente. Se Jânio Quadros tivesse terminado seu mandato? Sem chance de reeleição pela Constituição, seria provavelmente sucedido pelo popular Juscelino Kubitschek. Em nova onda desenvolvimentista, poderíamos assistir ao aumento da dívida pública, novas brigas com o FMI e uma imagem desgastada do mineiro. Poderia ser sucedido por Lott com promessas de restauração da ordem e da responsabilidade fiscal ou por Carlos Lacerda, representando um conservadorismo civil de amplo apelo entre as classes médias. João Goulart poderia tentar novamente o poder, agora pelo caminho da titularidade e com promessas de restaurar a herança getulista-trabalhista e da proteção ao salário mínimo devastado pela inflação do segundo governo JK. Teria ocorrido um novo milagre econômico nos anos iniciais da década de 1970? Parte do milagre dependeu de créditos baratos e investimentos estrangeiros, parte derivou da concentração de renda e do modelo exportador e outra parte do sucesso derivou da manipulação de dados do governo Médici.

Sem ditadura militar que destino teriam tido Lula, Fernando Henrique Cardoso, Ulysses Guimarães, Fernando Collor de Mello e Dilma Rousseff? A carreira de todos eles foi barrada ou incentivada pelo estado de exceção entre 1964 e 1985. FHC não teria sido aposentado precocemente, Lula seguiria sindicalista no ABC, Ulysses exerceria um repetitivo mandato de deputado federal. Fernando Collor teria herdado as empresas em Alagoas e Dilma, talvez, não tivesse conhecido seu marido e teria defendido sua tese na Unicamp onde poderia ser, hoje, minha colega universitária. Tudo se abre quando emprego o se...

Se não tivesse ocorrido o golpe, a Constituição de 1946 estaria em vigor emendada e remendada. A corrupção, seguindo sua tradição, seria enorme e muito se falaria de reforma política. Os grandes partidos como a UDN, o PTB, o PSD e outros estariam bem desgastados pela ascensão de novas forças sociais e políticas. Haveria denúncias frequentes sobre a Câmara dos Deputados e o Senado. Crises econômicas mundiais levariam à recessão, ao desemprego e ao crescimento de discursos radicais. O que me inquieta é que a possibilidade onírica da história contrafatual parece nos trazer ao mesmo lugar... Será destino?(DoEstado)

Por Leandro Karnal

 

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