O Palhaço 5º Capítulo

A Bigorna 17/02/2018 20:56:00 721 visualizações
# legenda: Continuação do Episódio 3

Ele se deslocou lenta e sombriamente em direção ao porão de sua casa, onde havia enterrado o passado. Ia mudando o jeito de andar para acompanhar a escada íngreme e encanecida devido ao tempo, ao abandono. Ele olhou para a porta. Parecia que lá estavam escondidos os piores demônios de sua vida. Ali tudo tinha sido jogado, a fim de tentar apagar um passado que sua alma tentava esconder nos recônditos do subconsciente. Onde tudo está ativo e ao mesmo tempo apagado. Quando tocou a maçaneta da porta, algo se rompeu, ele deu um grito e acordou.

Estava suando demais. Olhou às horas, e saiu da cama quando os primeiro raios de sol faziam com que um novo dia com ele aparecesse. Dormira mal e se sentia exausto. As fotos estavam de volta ao cofre. Decidiu que não mostraria nada ao novo delegado. Queria apagar da mente tudo de novo. Apagar duas vezes as mesmas coisas, coisas demais, uma coisa que foi ressuscitada por um animal.

Somos animais demais – pensou enquanto colocava água para ferver e esperar para tomar um café.

Dois dias antes.

Quando Débora e Tonhão chegaram ao local indicado pela perícia, perceberam, logo de início que as coisas não eram tão simples. A rua inteira estava isolada, e muitas pessoas estavam ali; a TV e os jornais chegavam pipocando a cada minuto.

Passaram pelos policiais que faziam a  barricada para que ninguém chegasse até o local; mais adiante notaram um galpão abandonado. A noite chegava impetuosamente e as lanternas já começavam a ser usadas. Dois delegados e diversos investigadores estavam ali; uns absortos analisando o local, enquanto outros, ao lado, fumavam e conversavam algo que ele não conseguiu distinguir.

O delegado Luiz Francisco do DHPP estava ao lado do amigo da delegacia da Zona Sul. O crime estava sob sua jurisdição, mas depois de apertarem as mãos e se conhecerem, o delegado explicou que faria um apoio, já que ali, o crime propriamente dito, tinha todas as sequelas da participação do chamado ‘Palhaço’. O mesmo local onde o Palhaço assassinara a filha do delegado morto.

O corpo já estava coberto. Tonhão não resistiu e levantou o pano que cobria um pequeno ser-humano que ainda estava na fase das alegrias e felicidades e sonhos. Logo saiu e foi para um canto. Débora enquanto isso colhia informações para o relatório.

O delegado-chefe de Tonhão chegou perto dele e colocou as mãos em seu ombro, o que fez dar um pulo de susto.

“Desculpe, não queria assustá-lo. Mas preciso falar com você. É muito sério. Tonhão você é o homem mais experiente da delegacia e mesmo com o apoio do DHPP, acredito que você tenha mais condições de chefiar essa investigação. Errei ao tirá-lo dela, peço que reconsidere e aceite minhas desculpas”.

Tonhão jogou a bituca de cigarro e olhou firme para o chefe, notando que Débora se aproximava.

“Delegado, posso aceitar sim, desde que minha parceira seja a Débora. Ela é muito competente”.

O delegado aceitou e fizeram as pazes de um descuido que acabou virando uma diferença pessoal.

Débora se aproximou. O delegado estendeu-lhe a mão e saiu.

“Você não deveria, por hora, ter olhado o corpo daquela criança”.

Tonhão voltara a ficar cabisbaixo e acendera outro cigarro. Em sua mente o estado do corpo da menina latejava.

“Ele é cruel. Você viu o que fez com o corpo daquela pobre menina?”

“Não vi ainda. Vou esperar para analisar no IML.”

Tonhão suspirou.

“Olhar. Olhar o quê? Vá lá e veja por si mesma como está a menina. Àquele animal a trucidou.”.

Débora saiu rapidamente e foi até onde estava o corpo da menina achada morta.  Virou-se para a agente da perícia e perguntou há quanto tempo estava morta. Segundo a perita, há pouco menos de duas horas, ou um pouco mais que isso.

Quando levantou o pano o que viu foi algo aterrador demais. Respirou e fixou os olhos naquele pobre ser. O Palhaço teria ficado dias com a menina e só depois fez algo que um ser-humano em sã consciência jamais entenderia.

O corpo da menina estava sem as pernas e os braços. A cabeça estava toda pintada de um tom branco, com a boca cortada, como o modus operandi do assassino, de fora a fora, com batom que lhe dava a conotação de um palhaço. Mais havia algo diferente desta vez. O batom era de cor alaranjada, e não vermelho, como ele fazia. As investigações de Débora batiam com todos os modos criminosos de outros crimes. Entretanto, os crimes foram tratados e traçados por quem os investigou de uma forma errônea, principalmente por não terem realizado comparações. Mas isto podia ser entendido. O assassino realizou crimes em diferentes cidades e longe uma das outras. A falta de comunicação entre quem investigava os crimes foi um dos motivos de nunca terem conseguido achar o criminoso.

Pouco antes do carro do IML chegar, Tonhão estava andando pelas margens de onde aconteceu o crime, quando viu um envelope. Abaixou e pegou rapidamente o abrindo no mesmo instante.

“Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar”. - William Shakespeare

Logo abaixo uma caricatura de um Palhaço e um escrito com recortes de jornal novamente.

“Salve-salve investigador. Eu sou a morte. Sou o corredor que leva até ela. Sou o tudo e o nada, que justapostos em ficções de interlúdio você terá que encarar”.

 

 

 

 

 

 

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