O Palhaço 6º Capítulo

A Bigorna 24/02/2018 10:41:00 684 visualizações
# legenda: 4º Episódio

Era domingo. Um dia onde as brumas pareciam começar a tomar conta da cidade. O inverno se aproximava e as investigações ainda patinavam. Débora, depois de muito esforço, conseguiu descobrir que a mulher e a menina eram nascidas em São Paulo e estavam no plano de proteção à testemunha do governo. Foram meses de investigações e cruzamentos, para um primeiro desfecho nada normal.

É fácil fazer as coisas baterem, desde que, claro, outro lado ajude.

Tonhão no limite do stress. À noite pela segunda vez naquele Barracão lhe custara uma tremenda dor de cabeça. Há duas noites havia tido pesadelos. E o Palhaço conseguiu levá-lo para o pesadelo de sua própria vida. Nunca havia tido problemas com o serviço policial, entretanto, uma mente arguta consegue mexer com o psicológico de outra ao adentrar em suas memórias.

Tomou o café e se lembrou de quando os parentes foram reconhecer o corpo. Estavam todos assustados, principalmente por que na noite posterior receberam um caixa.

Seu celular tocou.

Era Débora.

O bilhete ainda estava na mesa da cozinha, onde deixara debaixo de uma pedra azul.

“Alô”.

“Dormindo?” – uma voz charmosa do outro lado já era rotina em sua vida. Débora tinha os atributos mais lindos numa excêntrica mulher, e aquilo o deixava abobado, mas durante o trabalho, procurava não deixar transparecer sua admiração pela colega e agora parceira de investigação.

“Não consigo dormir muito. Acho que meu sono, simplesmente, sumiu ou fugiu de mim. E quanto a você, por que acordada tão cedo em pleno domingo invernal?”.

Débora lhe contou que passara parte da noite fazendo pesquisas e que queria levá-las até a casa de Tonhão, nome que ela costumava não usar. Chamava-o sempre de Antônio. Ela era discreta e educada demais, ele achava.

Pelo lapso de tempo que levou para responder, Débora foi logo interrompendo sem ele sequer falar nada.

“Em dez muitos estou aí.” – desligando.

Ainda com o celular na mão ele ficou olhando para o infeliz aparelho. Quem havia mesmo inventado aquilo que achava você em qualquer lugar. Se pudesse pegaria um martelo e bateria tanto naquele objeto até não poder mais. Queria espairecer. Parecia que o mundo dava voltas e mais voltas e tudo se centralizava naquele maldito “Palhaço”.

A prefeitura havia derrubado há poucos dias o Barracão abandonado, local que foi muito explorado pela mídia sensacionalista. Tanto ele como Débora e uma equipe do DHPP e da Perícia voltaram pelo menos mais umas cinco vezes ao local, antes de darem o sinal para que o Barracão viesse abaixo. Os parentes da mãe e filha mortas tiveram que deixar a cidade, tamanho era a incoerência de alguns canais de TV que queriam sempre entrevistá-los.

A campainha soou e o café estava quente.

“Hoje é domingo”. - falou satirizando e se esquecendo de que estava apenas de samba canção.

Débora foi entrando.

“Ah, que bom, café.”

Tonhão revirou os olhos e sorriu. Débora notou que era o primeiro sorriso que ele expressava em mais de cinco meses e ficou feliz. Somente após algum tempo Tonhão se deu conta de que estava seminu. Pediu desculpas e disse que iria colocar um abrigo, mas Débora foi rápida ao dizer que não iriam a lugar algum e que sequer havia notado que ele estava impropriamente vestido.

“Sou uma dama, não se esqueça, mas certas coisas, a gente deixa passar”.- disse em tom de deboche.

Tonhão voltou a sorrir, mas mesmo assim foi até o quarto colocar um abrigo.

Do lado de fora, um carro preto estava estacionado a mais de 50 metros. Um homem vestido de preto observava pela fresta da janela com um binóculo todos os movimentos dos dois colegas. Atrás havia um pacote semiaberto, onde apenas se via um nariz grande e vermelho.

Depois de pouco mais de meia-hora,  o homem desconhecido tirou algumas foto com uma câmera especial-profissional,  deu partida e passou lentamente defronte a casa do policial.

“Antônio. Você notou que depois do assassinato da menina, já se passaram mais de cinco meses e nada de outro crime ou alguma pista?”

Já de moletom azul em pé, Tonhão andou até a mesa onde deixara o bilhete. Pegou-o e entregou a Débora. A cara que ela fez não foi muito das melhores.

“Estamos procurando o cara errado”. Disse por fim Tonhão, após algum tempo calados. “O cara é rico. E tem tempo suficiente para poder fazer, ou melhor, preparar qualquer coisa que quiser fazer”.

Enquanto o investigador falava, Débora lia atentamente a carta.

“Concordo. Essa carta que você me entregou, por acaso tem ideia do que ela significa?”

Meneando a cabeça num tom de não saber, ou não ter ideia Tonhão falou que há dias lê e relê a carta, mas parece que tudo leva a um abismo sem saída.

“Realmente você não tem a mínima ideia caro senhor?”

“Não. Não sei...”

“Pois bem seu burro. Porque não me mostrou antes?”

“Desculpe.”- disse num tom quase de súplica.

Débora suspirou e olhou com firmeza para o colega. Os olhares se cruzaram e, por um segundo, Tonhão teve medo daquele olhar penetrante e exigente.

“Olhe, de novo, me perdoe, não sabia o que fazer, e achei que era apenas algum tipo de sátira.”

Débora pegou a xícara e se serviu de mais café. Abaixou a cabeça, como se estivesse pensando. Tudo agora para ela parecia que estava se encaixando. As pesquisas estavam batendo.

“Olhe aqui pra mim”- disse apontando o dedo para sua própria face. “Preste atenção. Ele está te desafiando Antônio. Minhas pesquisas mostram tal caminho, e você não tem ideia do que descobri nestes meses a fio”.

Por um momento os dois se calaram. Um vazio preencheu o ar da casa, e, de repente, a porta do sótão que e era usado pela falecida mulher do investigador como depósito bateu fortemente, e um vulto parecia estar naquele local os observando.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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