O prazer de ler

A Bigorna 05/08/2018 21:39:00 76 visualizações
# legenda: Artigo

Ganhei, há alguns anos, um livro com encadernação primorosa da extinta editora Cosac Naify. Analisar a qualidade gráfica daquela edição aumentou ainda mais meu luto pelo fim da casa. O livro me foi entregue por um aluno após um curso que dei sobre nobreza e seu universo de valores. Guardei a obra com carinho e foi para a terceira pilha. Tenho uma lista de obras obrigatórias que uso para preparar aulas ou escrever livros. Esses são consumidos com rapidez e dever marcial.

A segunda pilha é de obras que eu quero ler ou reler, autores como Shakespeare, um novo texto de Vargas Llosa, um livro escrito por um amigo próximo. Essa é lida com mais vagar e, geralmente, em momentos mais tranquilos. A terceira pilha é “por sua conta e risco”. Os volumes ali são de autores que conheço pouco ou nada e que, imediatamente, não apresentam conexão com o que estou estudando. A terceira pilha é a mais longeva e virgem. Foi o que aconteceu com o romance Oblómov, de Ivan Gontchárov. Por acaso, peguei o livro para um fim de tarde. Um gesto aleatório, sem plano ou meta imediata, guiou minha mão ao volume.

Primeira confissão: li muitos autores russos e nunca havia lido Gontchárov. Descubro nas palavras introdutórias do estudo sobre ele que viveu na Rússia czarista entre 1812 e 1891. Biografia opaca, filho de comerciantes estáveis, funcionário público mediano, solteirão convicto e, ao que parece, ligeiramente paranoico. A obra em questão, publicada em 1859, contava com a sincera admiração de Dostoiévski.

Quando leio uma obra que eu não conhecia de Balzac ou de Vieira, sou tomado de muitos julgamentos e informações anteriores. Entro naquelas selvas armado e com material prévio. Oblómov veio agreste e sem advertências iniciais. Na minha infinita ignorância, nada sabia do autor ou do enredo. Foi muito bom ter a experiência.

Oblómov é um nobre de alguns recursos, possuindo servos e uma propriedade, morando na cidade e servido por um fiel lacaio. É homem de cultura formal mediana, acima do senso comum e bem abaixo de um pensador original. Disperso, preguiçoso, sem metas ou objetivos, hoje seria considerado o modelo ideal do antiempreendedor. Tem dificuldade olímpica em sair da cama, recebe pessoas, faz contraponto a personagens opostas, como um laborioso alemão-russo. Não desenvolverei muito do enredo para evitar spoiler.

As descrições são muito vívidas, pois a pena do autor nos traz para o quarto empoeirado, para um declínio de um nobre e da própria Rússia, de todo um universo que terminaria com o fim da servidão, em 1861. Seria algo análogo (em estilo distinto) a um texto de Pierre Choderlos de Laclos (As Ligações Perigosas) sobre o vazio da nobreza francesa com cabeças frívolas, vivendo inadvertidamente, às vésperas de perder esse oco na guilhotina. Como o D. Quixote de Cervantes, traz do declínio um retrato intenso sobre um mundo que, como uma lâmpada prestes a queimar, solta um clarão final que permite aumentar a acuidade do olhar.

O prazer da leitura foi intenso. Diante do meu mundo diligente e produtivo, o nobre russo era um contraposto que causou até certa repulsa no começo, comiseração depois e total fraternidade humana ao final. As personagens mudam dentro de você e provocam uma terapia curiosa que indica em quais pontos da leitura aumenta sua raiva ou compaixão na relação especular.

Dissolvo-me na Rússia do czar Alexandre II, descubro padrões de sociabilidade, valores distintos, metas de vida que trazem o enigma se são o oposto ao meu mundo ou apenas falam outra língua. Descubro palavras e interrompo a leitura para consultar o dicionário. Não consigo seguir uma oração sem que a definição léxica tenha clareza. A palavra estaroste, por exemplo, aparece muitas vezes, e eu, leitor voraz de literatura russa, nunca tinha notado sua presença.

A correta diferença entre um cavalo alazão e um murzelo já é uma nova pedra no muro do conhecimento. Acho que ouvi milhares de vezes a palavra alazão e nunca tinha, de fato, procurado saber seu significado. Apego-me ao universo eslavo, entro nas casas e nas ruas de São Petersburgo, acompanho as prevaricações do lacaio e sua cândida e tocante fidelidade misturada a fel. Saio do meu mundinho limitado e amplio minha visão geográfica e cronologicamente. Termino o livro. Respiro fundo. Foi uma jornada e, como já foi dito, tenho a sensação de que o livro me leu. Reflito: nossa, o tesouro dessa obra esteve naquela pilha de forma paciente, silencioso, com capa de tons violáceos e totalmente discreto.

Não se apresentou, não subiu a voz, não invadiu espaços e permaneceu mudo e tranquilo. De repente, não mais que de repente, eu o pego e ele lança uma luz sobre mim e sobre o mundo que me emociona até agora. Como alguém pode se emocionar com um nobre preguiçoso, macilento, misantropo e totalmente sem iniciativa. Um dos grandes mistérios da leitura reside aí. Entrar no quarto de Oblómov é, em si, um safári pelo desabrido vasto da mente humana. O realismo de Gontchárov chegou a despertar minha rinite com a poeira onipresente.

Fecho o volume com vagar. Recupero meu mundo. Acordo de um sonho ou retorno de uma viagem. Fui transformado e me recordo das centenas de vezes em que isso ocorreu. Em estratégia para acordar, leio alguns comentários na internet, slogans, insultos, toneladas de ódios carregados de enxofre e rasos como um pires. Volto para a terceira pilha de livros. Mais um que vai me salvar de supor que a internet em ano de eleição seja algo viável. Meu bom Cervantes já ensinou: os moinhos constituem gigantes e não apenas pás que giram para a direita ou para esquerda.

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

 

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