Ódio nostálgico

A Bigorna 19/08/2018 11:36:00 175 visualizações
# legenda: Artigo

No mundo do marketing pessoal e de redes sociais onipresentes, as pessoas vendem um produto fundamental: elas mesmas. A imagem é decisiva e precisamos ser camelôs exibindo na barraquinha virtual a nossa felicidade e o glamour da nossa vida exuberante. Como em todo comércio informal, surge o bordão de antiga propaganda: “La garantia soy yo”.

Além da “self-propaganda” permanente, alguém hábil sabe que deve adotar causas nobres, defender coisas de amplo apelo e evitar polêmicas complexas. Lembro-me de assistir a um elaborado show de elefantes amestrados na Tailândia e todos fotografavam incessantemente, como de hábito. De repente, uma das colegas de viagem advertiu: “Não publiquem fotos de animais em shows ou sendo usados dessa forma, causa muitas descurtidas”. A frase caiu como uma bomba. Sim, o show seria visto, aplaudido, apreciado, porém... não poderia ser publicado nas redes. Fotos politicamente incorretas seriam um buraco negro destruidor do esforço de marketing. Imagem tem valor de mercado. 

Vamos aprofundar a ideia ética do espaço virtual. O império da virtude é saudável, ainda que contenha um traço maquiavélico de parecer em vez de ser. Todos viramos a mulher de César necessitando alardear o correto. Ainda assim, precisamos conter discursos de ódio e ter consciência de que palavras podem estimular violências físicas concretas. O primeiro passo de todo genocídio é a piada infame. Para que uma mulher seja espancada, em algum momento a música, a propaganda, o humor e o debate de bar precisam construir um esvaziamento da dignidade feminina. As palavras machucam antes do sopapo. Não há como usar o argumento de liberdade de expressão diante de crime, como racismo ou violência contra a mulher. Aumentamos nosso zelo sobre afirmações, músicas e humor.

O medo e o ódio perderam seu passaporte universal e passaram a preferir outras máscaras. Eu não posso dizer (e insisto, é correto que não possa) que tenho uma ideia preconceituosa (contra a Região Nordeste ou contra gays, por exemplo). A fala não pode mais ser tão livre como era até ontem. O discurso de ódio faz perder clientes e até pode barrar uma entrevista de emprego. O velho ser preconceituoso ainda não morreu e o novo, isento de preconceitos, está por surgir. Surge uma paralaxe, uma separação entre sentimento e fala. Passamos a funcionar como a anedótica cena com Galileu: forçado pela máquina repressiva da Igreja a dizer que a Terra não se movia, calou-se, aceitou teatralmente e salvou sua vida. Segundo a tradição, teria se voltado ao prédio do tribunal e dito: “E pur si muove!” (no entanto, ela se move).

Galileu, publicamente, tinha de adotar o Geocentrismo e mostrar sua submissão a um paradigma equivocado. A frase dita à socapa, entredentes, era a vingança do indivíduo contra a repressão. Em semissilêncio, Galileu Galilei resguardava parte da sua dignidade, dizendo que, ao menos dentro dele, continuava firme o curso da crença heliocêntrica. “Podem me obrigar em público, jamais na minha consciência”, poderia ter pensado o pisano.

No século 17 ainda não tinha despontado o Grande Irmão de Orwell. Não era fundamental a convicção interna, apenas a exteriorização. Galileu podia valer-se da duplicidade maquiavélica já aludida: parecer era mais importante do que ser.

A comparação que fiz tem uma provocação: Galileu estava ao lado do avanço científico e trazia uma ideia nascida de observações demonstráveis. O preconceituoso, pelo contrário, é o lado da Inquisição; jamais se sustenta no real e nunca pode demonstrar suas convicções. O preconceito nunca é científico. A diferença é que o pensamento preconcebido era institucionalizado.

Voltemos ao mundo atual. No momento em que racistas, homofóbicos, misóginos e outros quejandos não podem mais expressar seu ódio de forma tão aberta como antes (pela lei ou vigilância pública das redes), eles passam a evidenciar uma adesão aparente ao correto. Internamente, não tendo existido o consenso, mas apenas o medo e a coerção, em vez de afirmar de forma inaudível seu protesto, ele passa a usar perfis anônimos para demonstrar a barreira entre o público e a crença interior. Galileu, mal comparando, pode gritar à vontade, desde que assine como italianoindignado67. A internet substituiu o medo da fogueira pela certeza do anonimato sombrio e covarde, propiciando que os ódios mais tenebrosos possam encontrar um lugar ao sol.

No caso de Galileu, era o paradigma novo lutando contra o atraso científico e a repressão intelectual. No caso do anonimato das redes, o preconceituoso encontrou um nicho úmido para que sua faceta covarde possa continuar germinando. Por anos, ele fez piadas infames sobre as mulheres. As pessoas riam e nunca houve problemas. Agora, seu ódio e seu medo viraram argumento para ser barrado na promoção no trabalho, já que seu perfil era de um hater e as empresas não podem ofender consumidores. Impossibilitado de se expressar à luz do dia, ele veste o manto da invisibilidade das redes e, confortável, pode voltar a ser o velho panaca de sempre, sem refletir ou questionar. Este é o lugar agradável do ódio, a fluidez direta do preconceito e o escudo protetor que um discurso excludente traz. O ódio permanece, mesmo quando proibido pela lei ou desestimulado pelo politicamente correto. Conseguiremos estimular o consenso sem usar da coerção?

Por Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

 

Contato:

WhatsApp (14) 9.9705-7070
Fone: (14) 9.9705-7070
Email: contato@abigorna.com.br