REVOLUÇÃO DE 32 - Nas trincheiras da Guerra Paulista

A Bigorna 08/07/2018 17:07:00 616 visualizações
# legenda: Revolução de 1932

Estudantes e camponeses de Avaré lutaram por uma nova ordem constitucional

*Gesiel Júnior

Entre os meses de julho e outubro de 1932, os paulistas, unidos como nunca, promoveram o maior movimento cívico de sua história: a Revolução Constitucionalista.

Em todos os cantos do Estado cidadãos se organizaram em tropas voluntárias na tentativa de derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas e para lutar por uma nova constituição para o país, que ficara sem Congresso Nacional, assembleias legislativas e câmaras municipais.

Chamada de Guerra Paulista essa revolução armada foi um protesto contra a interferência da ditadura na administração estadual, para a qual não dava autonomia. Foi também um desdobramento da Revolução de 1930, em que Vargas e seus seguidores impediram a posse do paulista Júlio Prestes na Presidência da República.

Mesmo sem ver combates em seu território, Avaré se mobilizou para apoiar a causa revolucionária numa grande concentração popular. Assim registrou o jornal "O Commercio", em sua edição de 17 de julho de 1932:

"Avaré está de braços dados, na intimidade de irmãos, com todo S. Paulo, para o mesmo ideal, para o mesmo sonho. A passeata cívica bem o diz: os avareenses se compenetram de que a hora é decisiva, não admite hesitações, requer todos os sacrifícios".

Com forte apoio popular houve o envio de tropas para os fronts em todo o Estado. Enquanto as tropas federais eram mais numerosas e bem equipadas, São Paulo dispôs de cerca de 10 mil soldados da Força Pública, 25 mil civis voluntariamente alistados e apenas 5 aviões e 3 trens blindados! Contra 100 mil soldados do exército, marinha e aviação, os rebeldes paulistas aguardaram a adesão de outros Estados, o que não ocorreu.

Batalhão Avaré

Como em quase todas as localidades do Estado, a cidade de Avaré também formou sua tropa, sob comando do capitão Alcides do Vale, enumerada como o 15º Batalhão Constitucionalista.

Segundo ordem do general Bertholdo Klinger, chefe do Supremo Comando das Forças Constitucionalistas, os voluntários de Avaré ficaram subordinados à Brigada do Sul comandada pelo general Ataliba Leonel. Era composta de quatro batalhões de Infantaria, dentre os quais o de Botucatu.

A 27 de julho, a cidade recebeu os integrantes do 2º Batalhão de Caçadores, procedente de lá. A propósito, é do historiador botucatuense Hernâni Donato, o mais respeitado cronista da Guerra Civil de 32, a descrição da passagem dos combatentes por Avaré:

"Na estação, embandeirada, vibrante pelo estrondo de fanfarras e da banda de música, discursou epicamente Josephina Pinheiro Machado enquanto moças ofertavam rosas aos soldados. A multidão cantou o Hino Nacional e quando o trem se pôs em movimento, os que partiam e o povo entoaram a Canção do Soldado".

Integrava o regimento avareense o pároco da matriz de Nossa Senhora das Dores, padre José Fernandes Tavares. Como capelão esse sacerdote português seguiu as tropas de Avaré e Botucatu completadas pela adesão de camponeses.

"Gente de boa vontade, mas que jamais havia empunhado uma arma e sequer sabia como abrir trincheira", observa Donato. Destacados precariamente para defender 70 quilômetros de frente, na área Itaí-Taquarituba-Caputera, cada qual dispunha de sete cartuchos, um fuzil cada dois homens e uma única metralhadora.

Ouro para o bem de São Paulo

Chefe do comitê revolucionário local, o coronel João Cruz, fazendeiro de café e pai de dois importantes políticos – o médico e ex-prefeito José Bastos Cruz (deputado constituinte em 1934) e o ex-chefe de Polícia do Estado, Mário Bastos Cruz - presidiu os trabalhos da "Campanha do Ouro" com a meta de levantar fundos para sustento das tropas paulistas e manutenção da parte bélica.

Ao todo, entre ofertas recebidas da comunidade – anéis, alianças, brincos, pulseiras, relógios, correntes, medalhas e moedas douradas – o Banco Comercial somou em jóias a importância de 30 contos de réis.

Dentre os doadores, gestos tocantes como a da menina Gertrudes Hirner, filha de alemães, que ofereceu seu porta-jóias contendo uma lâmina de ouro, um anel com pedrinhas de brilhante e um relógio com pulseira dourada.

Entusiasta da causa paulista, o advogado Cory Gomes de Amorim doou seu anel de formatura, aro de ouro com um rubi e chuveiro de 10 brilhantes, mais um prendedor de gravata e outras peças de ouro.

 Avareenses no front

Combatentes avareenses atuaram em várias frentes. Caso dos ilustres estudantes Antônio Ferreira Inocêncio, Paschoal Bocci, Paulo Gomes de Oliveira e Paulo Bastos Cruz.

Alunos das Arcadas, Bocci e o doutor Antoninho (prefeito de Avaré entre 1948/1951), os dois assistiram de perto ao martírio dos colegas Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. Mortos no dia 23 de maio de 1932 por tropas governistas, suas iniciais MMDC se transformaram no grande símbolo da revolução.

Já Paulo Gomes, futuro advogado e político, combateu numa região serrana, na divisa com o Estado do Rio, enquanto que Bastos Cruz incorporou-se ao Batalhão "14 de Julho", acantonado em Capão Bonito. De lá, comovido, em carta ao pai, em agosto, ele fez uma declaração de amor à sua terra e ao seu Estado, digna de transcrição:

"Hoje, mais do que nunca, me orgulho de ser avareense. Só sinto não poder incorporar-me ao lado de meus conterrâneos e com eles marchar em busca da vitória. Contudo, São Paulo é uma só alma, e tanto eles como eu tomamos um lugarzinho nessa grandiosidade imensa. Não importa que seja neste ou naquele setor. Combatemos juntos porque combatemos pela mesma causa e pelo mesmo ideal imorredouro".

Outro avareense, Cory Gomes de Amorim, eleito deputado constituinte em 1934 pelo Partido Constitucionalista, chefiou o "Batalhão do Bispo", criado por dom Carlos Duarte da Costa, prelado de Botucatu. Disposto a lutar "sem armamento algum" o contingente, composto por voluntários católicos, rumou para Campinas e São Paulo, já no fim do conflito, onde se dispersou.

Uma curiosidade: até a famosa pintora Djanira, ainda jovem e morando na Capital, antes de descobrir-se artista, participou do movimento. Como? Costurando camisas para a farda dos constitucionalistas.

"Dei a vida por São Paulo", dizia Ephraim Ortiz de Camargo, ao relembrar os tempos de combate. Nascido em Avaré, militar da cavalaria, ele perdeu um braço em batalha no Vale do Paraíba. Apesar da derrota militar para o getulismo, garantia que a luta não foi em vão porque o país mais tarde reconquistou a democracia.

Felizmente, ninguém de Avaré tombou nessa guerra civil. Porém, as baixas para São Paulo não foram poucas. No Mausoléu Oficial, no Ibirapuera, repousam os despojos de 634 heróis.

 

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Do livro Avaré em memória viva II, de Gesiel Júnior, Editora Gril, 2011

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